13.6.05

cunhal



O papel de Álvaro Cunhal na história portuguesa acabou há 30 anos, quando caiu o Estado Novo e, com o regime, o mundo que ele e Salazar ajudaram a moldar.
No verão quente de 75 teve o seu derradeiro encontro com o destino. Perdeu.
Felizmente.

pop

A cultura pop é uma indigesta e frenética mistura de latinos, pretos e wasp, roupas, raças, línguas, credos, hamburgueres e cordon bleu. Pode chamar-se-lhe cacofonia parola. Ou pode ser considerada a última síntese, o ácume da civilização, o produto destilado de mil anos de história e mil raças vindas de todos os lugares do mundo. Não esquecer que a perfeita destilação é também o produto final, fecal, de um longo processo digestivo em que à energia bruta, animal, das coisas originais foi retirada toda a substância e toda a utilidade. Perceber isto é perceber o ocidente. A força e a fraqueza.

verão

Os quilómetros de areia da Costa continuam a ser a praia mais espectacular de Lisboa. Há aquele bocado inicial da vila propriamente dita, com o casario de estilo Ceausescu, as tascas e um geral aspecto de bairro de terceiro mundo, que faz fugir o mais afoito. Mas depois há as praias mais longe: digamos, do Rei para a frente. Água fria e limpa e esplanadas onde se pode comer muito decentemente.
Para quem não gosta de filas de trânsito, há bom remédio: ir às 8 da manhã e sair ao meio-dia. É o que eu faço. Ou então ir depois das 6 da tarde e sair a tempo de tomar um duche e seguir para as docas.

histórias da caixa

Ontem houve ‘arrastão’ na praia de Carcavelos.
Reportagem televisiva: areia, veraneantes, uns sujeitos a correrem de um lado para o outro e quatro polícias do corpo de intervenção a descerem as escadas. Entrevistas: ‘a senhora viu?’ ‘Vi tudo!’ Somos servidos das impressões da senhora. A jornalista, que é paga para fazer a reportagem, limita-se a segurar no microfone.
Toda a gente viu que os assaltantes eram pretos. Nem uma vez, durante toda a reportagem, se ouviu dizer isso. Os nossos jornalistas também acreditam que a imagem é tudo.
Trata-se de um problema de ordem pública, antes de ser outra coisa qualquer. Trata-se de um caso de polícia. Eram 500 assaltantes (um bairro inteiro) e, pelos vistos, ninguém sabia que aquilo ia acontecer. A polícia não tem agentes infiltrados? Se tem, que diabo andam eles a fazer? Se não tem, porque é que não tem? Nenhuma destas perguntas foi feita na reportagem.
Houve prisões? Quantas? Não sabemos.
Já passaram 24 horas. O que aconteceu aos (poucos) detidos? Ficaram presos? Em que condições? Foram libertados? Porquê? Não sabemos.

Bom. Ontem, na praia de Carcavelos, uma das mais frequentadas do país, houve um assalto de estilo inédito em Portugal, que envolveu centenas de descendentes de imigrantes de origem africana. A intervenção da polícia foi lenta e pequena. Houve 3 detenções. Os problemas imediatos são: a) as consequências sobre o turismo, que depende em extremo da percepção das condições de segurança; e b) o possível aumento das tensões raciais. Isto não foi dito pela televisão portuguesa, durante as eternidades de emissão que dedicou ao assunto. Foi dito, numa reportagem de 2 minutos, pela BBC.

histórias da caixa

12 de Junho de 2005. Morreu Vasco Gonçalves. Nunca gostei da personagem. Foi perfeito representante do pior que o salazarismo nos legou: pseudo-revolucionários ignorantes, maniqueus e de vistas curtas, tecnicamente incompetentes e alegremente irresponsáveis. Mas tinha o mesmo direito que qualquer outra pessoa a ser visto pelo que era e pelo que fez.

Reportagem da SIC: uma jornalista de óculos escuros, à porta da academia militar, onde o corpo está em câmara ardente, relata que se juntou ‘muita gente’ para ‘chorar o general’. Porquê? Não interessa. Para a jornalista, o importante é que o povo chora. Se pelo general, pela Madre Teresa ou pelo Duque da Ribeira, é irrelevante. O povo chora. Essa é a notícia.

Vasco Gonçalves cruzou-se com o destino dos portugueses há 30 anos. Antes disso teve uma história. Foi ela que o levou ao sítio onde estava há 30 anos. Depois disso aconteceram coisas. Foram elas que o retiraram de cena. A reportagem da SIC mostrou Vasco Gonçalves a tomar posse como primeiro-ministro e, depois, num dos seus célebres discursos de ‘companheiro Vasco’. Não disse como foi lá parar, o porquê dos discursos ou por que desapareceu de cena.

Eu não sei se a jornalista sabe o que aconteceu há 30 anos, ou se já era nascida na altura. Não interessa. É jornalista. Espera-se que saiba, aprenda, pesquise, sintetize e apresente ao público um relato consistente, rigoroso e claro, que deixe as pessoas a saberem aquilo que não sabiam e lhes permita formar uma opinião sobre acontecimentos inesperados. É o trabalho dela. Se não sabe fazê-lo, ou se não consegue fazê-lo, é incompetente. Não serve. Devia ser despedida.

histórias da caixa

Confesso que vejo pouca televisão. Não gosto dos programas em geral. Não gosto do barulho. Uma das coisas que via habitualmente era a informação. Mas já desisti. Quando quero saber as notícias, vou à net ou leio os jornais. Até o 24 Horas tem mais substância (e melhor formato) do que a informação televisiva.

7.6.05

desesperada esperança

Nietzsche tinha a estranha ideia de que os gregos eram pessimistas e trágicos na arte porque eram optimistas e voluntariosos na vida. Vendo a crassa estupidez da televisão indígena, a minha esperança é que a ideia seja verdadeira. Mas duvido.

18.4.05

a sangue frio

Em artigo referindo que o novo presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência, João Goulão, quer retomar o programa de troca de seringas nas cadeias portuguesas, o Público inseria fotografia do dito segurando firmemente um cigarro na mão direita. E eu pergunto-me: foi descuido? Há no Público quem já odeie João Goulão? Foi partida?

9.4.05

saul bellow


1915 - 2005

dawn

Tão longo foi o intervalo que só hoje dei pela mudança de morada da Rua da Judiaria. Novo host, o mesmo gosto de sempre na leitura.

Dos comentários que li sobre João Paulo II, a mensagem que o próprio Papa colocou no Muro das Lamentações, em Jerusalém, transcrita por Nuno Guerreiro, é o melhor.

3.4.05

pornografia

Na SkyNews ou na CNN, as imagens transmitidas a partir da praça de S. Pedro eram acompanhadas por uma voz off, em tom neutro, que debitava informações concretas: a hora da morte, quem dissera o quê, o que irá acontecer nos próximos dias, onde e quando. Na TVI e na RTP as mesmas imagens eram acompanhadas por perguntas do género: quando soube que o Papa morreu sentiu-se emocionado? Não estou a brincar; ouvi mesmo esta pergunta ser feita. Isto está para lá de tudo. É inevitável que a morte de uma figura com o peso público do Papa fosse pública. Não é o carácter público que é indigno. O que é indigno é a ignorância, a estupidez, a grunhice de quem dá notícias assim, quem fala da agonia e da morte do Papa no mesmo tom sôfrego e circense com que dá "as últimas" da Quinta. O que horroriza nessa gente é a sensação que transmite de que não estabelece verdadeira diferença entre uma coisa e outra. Isto não se refere particularmente ao Papa. É sempre assim. Foi assim no desastre da ponte de Entre-os-Rios, nos incêndios do Verão de há dois anos, no maremoto da Ásia - é assim em tudo. Quem é esta gente? Quem a educou? Quem são os pais? Tem a crueldade primária das crianças mas tem supostamente mais de 20 anos, e portanto a dúvida impõe-se: é atraso mental?

24.3.05

estratégias

A economia americana cresce. E cresce. E cresce.
Os americanos , que querem ensinar a teoria criacionista nas escolas, têm as melhores universidades, os melhores investigadores, as melhores aplicações. Ou aquilo que passa por isso.
De onde vem o dinheiro? Dos orçamentos militares.
Os europeus, entretanto, debatem. As escolas, as leituras, as leis, o direito internacional.
A estratégia de Lisboa não contempla o investimento militar.
Esqueçam.

orwellianas

A sério que pensei que o cartão único do cidadão não passava de uma promessa de campanha, para esquecer logo a seguir às eleições. Agora, depois de ver a força do homem, começo a sentir-me preocupado.
O homem avança com as farmácias (acho bem). O homem avança com as férias judiciais (não tenho opinião). O homem avança. Eventualmente, o homem avançará com o cartão único.
A ideia do cartão único é um pesadelo. Todas as informações sobre a vida pessoal reunidas num único cartão, controlado pelo Estado.
Desburocratização? Qual desburocratização? No meu tempo chamava-se a essas coisas totalitarismo.

20.3.05

sócrates & cia.

Fique para registo que gosto do estilo do homem.
Gostei dos motivos dados para acabar com o beija-mão na tomada de posse. Não o fim dos boys, mas o conforto de quem tem de lá estar.
Gostei da forma como despachou as galinhas que foram protestar pela ausência de mais saias no governo. Acharão elas e os outros politicamente correctos que a senhora Rice está na administração Bush por ser preta e fêmea? Não terá essa gente noção do insulto que o discurso das quotas constitui para pessoas como Manuela Ferreira Leite, Leonor Beleza ou Elisa Ferreira? Depois de ver a dança triste do dr. Barroso na Comissão - vem fêmea da Letónia, vem macho da Alemanha - confesso que gostei. Pena que tenha de ser um socialista a marcar estas posições.
Arrogância? Faz falta neste país de brandos costumes e mesquinhas contabilidades. Bem haja.

Dito isto, sobram as políticas. Do que se viu até agora, não se recomendam. O emagrecimento do Estado que se anuncia não obedece a uma lógica de menos Estado, mas de redução da despesa. Não vai ser feito por ser benéfico, mas porque o que está é muito caro. Dir-me-ão que chega. Não acho. Quem corta o bife porque não pode pagá-lo, voltará a comê-lo assim que duas notas de cinco lhe entrarem no bolso. Assim os socialistas. De resto, o ministro das Finanças, num acesso de franqueza (que não lhe fica mal - não percebo o escândalo), veio logo dizer que a redução da despesa, sim, mas que se for necessário aumentar os impostos assim será.
E as farmácias. Sim, claro. Fica bem. É engraçado. Eu, por acaso, até concordo. Mas dificilmente se pode considerar que as actuais dificuldades da pátria derivam do local exacto em que se vendem as aspirinas.
Agradável foi assistir à reacção das gasolineiras. Chegando-se imediatamente à frente, sem vergonha, mostraram espírito empreendedor. É assim que se faz. Há uma oportunidade de fazer negócio? Tem-se vantagens competitivas? Porque é que se há-de esperar, pedir licença, fazer requerimentos, intrigar nos bastidores? Bem haja para as gasolineiras, também.

day after

Só perdi a cabeça e berrei com os anjinhos umas 12.522 vezes.

dia do pai

Pai, paizinho,
és muito queridinho.
Tratas-me quando estou doente
e eu fico bom de repente.

Henrique. 9 anos.

Pai
és meu amigo.
Às vezes bates-me
mas és sempre um super-pai.
Fica a saber
que eu gostarei sempre de ti.

João. 7 anos.

Quem se rir, apanha.

8.3.05

parabéns

à minha mãe pelo aniversário.

Diz-se sempre que a nossa mãe é a melhor. Eu também digo. Porque é.
Aturou-me. Ensinou-me contenção, dignidade e alguma impaciência.
Fingiu ignorar aquilo que se deve ignorar dos adolescentes.
Aprendi com ela o prazer das longas tardes mergulhadas nas páginas dos livros.
Por ela conheci Sartre, Faulkner, Proust e Miller.
E o resto.
Obrigado.

7.3.05

sovietes

2.3.05

a ler

arrumar e recomeçar

O PSD saiu quase destruído do governo e das eleições.
Não foram só os votos. Foi a alma.
Os eleitores deixaram de acreditar. As elites deixaram de acreditar.
Um partido do sistema não pode viver sem eleitores e sem elites.
E o PSD é um partido do sistema.
Ser do sistema significa ter a confiança das pessoas que querem meia dúzia de coisas básicas - o Estado de Direito, uma sociedade demo-liberal - antes de quererem qualquer outra coisa: impostos mais altos ou impostos mais baixos, hospitais públicos ou hospitais privados, reformas aos 60 anos ou aos 65 anos ou aos 70 anos, hiper-mercados abertos aos domingos ou não, SCUTs ou não.
Foi a confiança dessas pessoas, que são a maior parte das pessoas, que o sr. Lopes y sus muchachos deitaram fora em meia dúzia de meses de desvario e incompetência.
É essa confiança que é preciso reconstruir.
É a capacidade de o fazer que deve definir o próximo líder do PSD.
Marques Mendes será capaz de o fazer.
Mas eu preferia Manuela Ferreira Leite.
Não será fotogénica.
Não será propriamente diplomática.
Mas tem ideias firmes e apresenta-as com clareza e determinação.
Não terá medo de vassourar os cantos escuros do partido.
Não terá paciência para grandes ou pequenos jogos de influências.
É isso que os eleitores e as elites precisam de sentir outra vez na liderança do PSD.

a ler

as memórias da Biblioteca Municipal do Porto no Abrupto, que se espalham por vários posts. Falam de um Portugal muito diferente do nosso, antes de Santana, antes de Cavaco, antes de 74.

A mim, estas notas tocam-me especialmente porque também eu guardo memórias daquela biblioteca. Mais tardias, decerto, e mais imberbes. Suponho que datarão do fim dos anos 60, princípio dos 70. Parte das férias grandes era passada em casa dos meus avós e o meu avô, que todos os anos estabelecia cuidadosamente um programa que incluía museus, jardins e o mini-golfe do Passeio Alegre, na Foz, nunca se esquecia da biblioteca.
Das minhas memórias difusas de infância faz parte o cheiro a bafio das grandes salas escuras, o silêncio quase religioso, que me agradava - e o dia em que a biblioteca estava fechada e eu, sentado nas escadas da entrada, chorei raivosamente diante do meu avô, aflito e impotente.

Nestes tempos repletos de FNACs e hiper-mercados, é difícil compreender o apelo das bibliotecas para um rapazinho de 10 anos. Bibliotecas como a biblioteca municipal do Porto. Ou as míticas carrinhas da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian que quinzenalmente surgiam, cinzentas e atafulhadas de livros, na praça da vila. Não recordo os nomes do condutor e do ajudante, mas ainda me lembro das caras deles, e até das vozes. E eles também me conheciam. Eu era o miúdo que levava sempre o máximo de livros que era permitido, e que os lia todos, conforme eles podiam verificar, interrogando-me na visita seguinte (faziam-no com frequência, para matar o tempo de espera). Com o tempo passei até a poder levar mais do que a quantidade regulamentar.

Sei que a Gulbenkian encerrou as bibliotecas itinerantes há alguns anos. Suponho que já não teriam muitos leitores. Não sei. Tive pena.

27.2.05

as boas vindas

ao mais novo membro da família: Gandalf the Grey.


O Gandalf é um sharpei. Não parece porque quase não tem rugas. Partidas de Mendel. Acontece.


Chegou ontem.
Para garantir a surpresa das crianças, fui buscá-lo sozinho atrás do sol posto, algures em Arruda dos Vinhos. Nunca tinha viajado com um cão. Babugens à parte, não foi má experiência. Para mim, pelo menos. Para ele terá sido pior. A chegada a casa foi dramática. Para um cão criado numa quinta, os néons de Lisboa à noite e, depois, o mergulho na escuridão da garagem subterrânea deve ter sido uma experiência dramática. Foi com toda a certeza. Não queria sair do carro. Não queria entrar no elevador. Não queria sair do elevador. Tive de carregá-lo ao colo. E tremia.

As crianças ficaram entre o deliciado e o chocado. Mas duas horas mais tarde já estavam a levar o bicho à rua.
O nome é que ficou logo ali decidido: Gandalf the Grey, como o mago do Lord of the Rings. Nas fotografias não se nota porque a máquina é uma porcaria e eu ainda sou pior do que a máquina, mas o bicho é mesmo cinzento. Com duas manchas mais claras nas omoplatas, uma listra mais escura ao longo das costas, e patas e focinho quase negros. Uma delícia.

Durante a noite não chorou. Aceitou a cama que lhe comprei. Perdeu o medo, devagarinho.
Pela manhã já tinha perdido o medo por completo. Antes que alguém pudesse reagir, o tapete da entrada foi baptizado. Nas duas espécies, se é que me entendem.

Também nunca percebi para que serve um tapete. Por voto unânime da república, retirou-se o tapete.

O único problema são os livros.

25.2.05

a reconstrução da direita


Jackson Pollock

a ler

casa

Família com gripe, repouso forçado.
Antes de mais, um agradecimento aos tempos: graças ao telefone e ao email, há muito trabalho que pode ser feito, mesmo em casa.
Depois, uma confissão: assim forçado por circunstâncias exteriores, que apagam o remorso da semi-gazeta, o retiro sabe bem. Pode ver-se a casa onde se habita, e a rua lá fora, com olhos diferentes dos do fim de semana, ou do fim do dia, que são sempre cansados. Pensa-se. Lê-se. Tem-se ideias e tomam-se notas que os dias de trabalho não permitem, na roda viva-viva das horas, das tarefas, das deslocações, dos telefonemas.
Assim intercalado nos dias, o tele-trabalho sabe bem.

24.2.05

das cerejeiras em flor



das cerejeiras em flor
guardo o perfume
descrito nos livros

meteorologia e estados de alma

Ontem choveu.
Hoje não.
Suspiro.

23.2.05

graças

Esta manhã havia cheiro de chuva no ar. Parecia outono. Finalmente. Nuvens (ainda tímidas).
E o dr. Lopes anunciou que se vai embora.
Há dias assim. Felizes.

22.2.05

problemas 2

O meu problema é que, ontem, vivi o desespero de me sentir aliviado com a vitória de um partido de que não gosto, só porque essa era a única maneira de deitar fora o dr. Lopes. A questão é: vai acontecer?

A derrota devia servir para varrer o populismo santanista. Mas servirá? O homem não quer ir-se embora. De resto - para fazer o quê? O que é que ele sabe fazer? Não, ele vai lutar até ao fim. Será o partido capaz de o defenestrar?

Nunca me vi num partido político. Fui sempre demasiado independente, preguiçoso, individualista, casmurro. Mas há alturas em que é preciso fazer qualquer coisa. Forçar um bocadinho aquilo que se considera importante. Será?

problemas

Aquilo que foi ontem estrondosamente derrotado foi o populismo? Quero crer que sim. O menino-guerreiro, a incubadora, o amor a Portugal, eram maus demais. Mas foi isso que as pessoas recusaram ontem? Ou foi o discurso da tanga que, em essência, consistiu simplesmente em dizer aos portugueses aquilo que eles não gostam de ouvir: que trabalham pouco, que gastam demasiado, que não são eficientes, que desperdiçam muito - que não se esforçam? Porque não é a mesma coisa.

votos

Cavaco na Presidência.
Manuela Ferreira Leite a liderar o PSD.
Sonhos de uma noite de inverno?
Talvez não. Talvez o maremoto que varreu ontem a direita, descarnando a estrutura até aos alicerces, permita, primeiro, a limpeza, e depois, a reconstrução. Sem ratazanas. Sem cimento adulterado. Sem docas.

Sem ilusões, também. Os portugueses alimentam o estranho sonho de ganharem como os alemães, trabalhando como os ugandeses. O que me dói nos resultados eleitorais de ontem é a sensação de, mais do que ter expulsado a santânica nulidade, ter o povo renegado o esforço da tanga. Se foi assim, estamos mal.

Mas não se pode desistir. Pois não?

20.2.05

polaroids

Paulo Portas. Para quem o não conhece, será surpresa o discurso desta noite. A mim não surpreendeu. Quem tem honra, tem.

Santana Lopes. O discurso confirmou o governo. Queixinhas, bocas para o lado, fuga às consequências. Quem não tem juízo, não tem.

Paulo Portas 2. Graças a Deus - e estou-me nas tintas para que amanhã venham protestar por eu estar a invocar Deus - graças a Deus... Depois de tanto tempo a ver Portas a forçar-se a uma gravidade exagerada, foi agradável vê-lo voltar a ser desassombrado como foi sempre.

Miguel Portas. Na hora H, não conseguiu deixar de ser irmão. Ficou-lhe bem a ele. Fica bem ao irmão. Ficamos nós bem com esta prova pública de que as pessoas e a família podem muito.

José Sócrates. Nestes momentos as palavras ficam sempre aquém da emoção. No caso dele, é claramente a emoção que fica aquém das palavras. É estranho sentir a frieza com que este homem está nas coisas. Não é necessariamente coisa má, num país com demasiada gente com o coração sempre ao pé da boca. A ver vamos.

glória

O dr. Lopes, em 4 meses, conseguiu enterrar o PSD e enterrar a direita. Ficará, tenho a certeza, na história do partido. Em lugar de destaque. Como o líder mais azelha de sempre.
Israel aprova plano de evacuação da Faixa de Gaza.



Tão maus que são os judeus. Tão mau que é o sr. Sharon. Fazer-nos uma desfeita destas. Retirar. Nós não queremos que ele retire. Depois fazemos manifestações sobre o quê?

leis

Parece que o dr. Soares falou de "maioria absoluta do PS" ao sair da Assembleia de Voto. A CNE proibiu as televisões de transmitirem a coisa e parece que tenciona fazer uma queixa ao Ministério Público.
Como toda a gente sabe, o dr. Soares é um cidadão desconhecido, de desconhecidas tendências políticas. Ninguém fazia ideia de qual o partido da sua preferência até àquele momento. Revelá-lo foi uma violação pura da cidadania.
Acresce que o dr. Soares tem estranhos poderes hipnóticos. A declaração à saída da mesa de voto influenciará decisivamente a vontade e a lucidez de todos os cidadãos que, incautamente, a ouviram. É dado como certo que até os skinheads e o dr. Louçã, impulsionados por forças misteriosas, viram a esferográfica deslizar para o quadradinho do PS e aí inscrever, contra a sua democrática vontade, a cruz fatídica.
Eu, felizmente, já tinha votado. Escapei.

Agora a sério: a CNE considera os portugueses débeis mentais? Não se sente mal por ter de aplicar legislação ridícula?

boicotes

Os boicotes de mesas de voto não são perturbações da ordem pública? E as perturbações da ordem pública não são assunto de polícia?
Porque é que eu não posso deixar o meu carro em cima do passeio (e acho bem que não possa) e há depois energúmenos que podem fechar a cadeado assembleias de voto sem que a polícia intervenha?
Eu, se fosse eleitor e votante numa dessas curiosas freguesias onde se fecham mesas de voto, gostaria que os meus impostos me garantissem o direito de votar. Com o recurso à polícia, se necessário.
Se há quem não queira votar porque não tem médico, ou porque não concorda com a localização da ETAR, ou porque alguém autorizou um bordel ao lado da igreja, pois que não vote. Está no seu direito. Mas não pode fechar mesas de voto a cadeado. Estamos na Madeira?
Porque é que essa gente, em vez de fechar a cadeado as mesas de voto, não faz uma lista de cidadãos nas autárquicas e concorre à junta de freguesia, para trabalhar e defender os seus interesses?
Talvez porque isso dá trabalho? É mais simples e mais grunho fechar a cadeado as mesas de voto?
Há gente que nem o Salazar merecia.

eleições

Já votei.
Não votei muito convencido. Mas isso não me preocupa porque nunca percebi porque é que votar devia ser um acto de paixão. Quando escolho um governo não estou a escolher noiva. Não estou sequer a escolher um sócio. É mais um contrato a prazo: se no termo não houver satisfação de parte a parte, está entendido que se pode mudar.

Dito isto, e depois de esclarecer que dei o meu voto ao CDS, faço públicos os meus dois desejos para estas eleições: a) que o dr. Lopes vá embora depressa; e b) que haja um governo de maioria. Queijos limianos é que não.

intervalo

Hoje, 20 de Fevereiro de 2005, em Portugal não há política. Há eleições.

17.2.05

agenda

No domingo tenho imensas coisas para fazer. Ir levar as crianças a uma festa. Ir buscar as crianças a uma festa. Lavar o carro. Respirar. Dormir. Ler. Suspirar. Tomar banho. Vestir-me. Comprar qualquer coisa. Descer no elevador. Subir no elevador. Com sorte, não terei tempo para descobrir onde passou a estar a minha mesa de voto, que antes era na escola primária e que agora deve ter passado para outra escola qualquer, porque fecharam aquela porque não tinha alunos. E assim poupo uma angústia. Evito uma ânsia. Esqueço um problema.

P.Scriptum (por extenso, para evitar confusões): não esquecer de comprar uma dose reforçada de malte.

sem apelo

No próximo domingo ficarei deprimido se os socialistas ganharem, e ficarei deprimido se o dr. Santana ganhar.

«Há uma caixa de Prozac na gaveta.»
«Obrigado, prefiro o malte.»

16.2.05

irmã lúcia

Em Fátima impressionou-me sempre a força do culto mariano, culto mais pagão que cristão, próximo dos cultos ancestrais da Mãe e da Terra.
Não tenho opinião sobre os peregrinos. Cada um sabe de si. Não gosto, não vou. Não iria mesmo que fosse católico. A humilhação ritual não é matéria religiosa do meu agrado.

Sobre a irmã Lúcia.
Nada tenho contra a clausura. Deus sabe quanto essa ideia me agrada às vezes.
Tenho dúvidas se uma camponesa de 14 anos sabia o que estava a escolher. Se a deixaram escolher. Mas talvez isto não seja mais do que a arrogância urbana que gosta de ver os camponeses como gente ignorante. Deus sabe que os camponeses não são assim.

Só não entendo uma coisa. Não conhecia tendências particularmente penitentes a Paulo Portas e a Santana Lopes. Era muito difícil decretar o luto nacional e fazer uma referência sóbria a Lúcia - e evitar cenas de carpideira?

8.2.05

ai

Eu tinha jurado não falar de política até às eleições. Mas não aguento.

jeckyll & hyde

Uma longa citação de Teresa de Sousa:

A filosofia do programa do PSD deveria ser diferente, se continuasse a seguir o modelo barrosista - um Estado menos interventor em matéria de mudança de padrão de desenvolvimento, centrando os incentivos na redução dos impostos e deixando que as empresas façam o resto; e, consequentemente, disposto a reduzir significativamente as despesas públicas, incluindo a privatização de sectores importantes da segurança social. O modelo de Santana é mais parecido com o do PCP: se for preciso, acciona-se a cláusula de salvaguarda do acordo de liberalização do comércio dos têxteis; ninguém tocará nos direitos adquiridos de ninguém; ou, então, num toque de modernidade mais ao estilo "bloquista", anunciando que está tudo em aberto, da clonagem à eutanásia, "you name it"...

O modelo posto em prática até Junho de 2004 fazia sentido. Era consistente com um partido de direita liberal. Fazia o necessário contraponto aos apetites dirigistas característicos dos socialistas.
O modelo do dr. Santana constitui uma ruptura absoluta com essa prática anterior. É bom ter isso presente. O afastamento das principais figuras do (já longínquo) cavaquismo (de Marques Mendes a Pacheco Pereira e a de Manuela Ferreira Leite) não resultou de picardias, mas de discordâncias profundas na forma e no conteúdo.

O modelo anterior continuava a tradição reformista do PSD. O modelo PSL é populista - se continua alguma coisa é o PSD-Madeira. Quer fazer de Portugal a Madeira da Europa. Talvez não seja por acaso que a contestação à co-incineração vá buscar o problema dos «turistas». Não é de certeza por acaso que o inenarrável Alberto João Jardim o apoia.

Como é que um partido inteiro muda tão radicalmente de orientação no espaço de um mês (Junho-Julho de 2004)?
Não penso realmente que o PSD seja único nessa capacidade. Mas a falta de uma ideologia, tendo sido sempre a sua força, tornou muito provavelmente, neste caso particular, mais fácil que isso acontecesse.

Já não importa.
Agora só importa que Hyde tropece.
E arragaçar mangas depois. Para colar os cacos.

gimme hope


Dizem que são os velhos guerreiros quem melhor sabe fazer a paz.

sandeman



Só mais um e e eis o outro sandman da minha imaginação. O mais antigo. Uma silhueta negra iluminada em contra-luz sobre o Douro. À noite. Ao atravessar a ponte D. Luis.

sandman



Uma fabulosa série de BD escrita por Neil Gaiman.
Para quem, como eu, cresceu na BD franco-belga e, dos comics americanos, conhecia pouco mais do que os clássicos, do Superman a Batman, e de Dick Tracy ao Agente X-9, a descoberta soube a epifania.

6.2.05

angústia

Descubro, em leitura do Expresso, que estou de acordo com o BE numa coisa. É o único partido que, à pergunta:
Concorda com a actual redacção do Acordo Ortográfico?
responde:
Não.
Enfaticamente.

Meu Deus!

insónia

O dr. Santana fartou-se de insistir na agenda da modernidade: casamento de homossexuais, eutanásia, aborto, clonagem, e sei lá mais o quê.
A primeira impressão é, claro, que o dr. Santana não faz a mínima ideia do que são essas coisas. Colocar no mesmo barco uma instituição civil (o casamento) um valor fundamental (a vida: é ou não inviolável?) e uma tecnologia (a clonagem), ou é anedota ou é parvoíce. Ou ignorância pura e simples. Inclino-me para a última.

Que as ponha juntas. Pronto. A gente entende. O Bloco põe, as Docas põem, o dr. Santana põe.
Mas dizer depois que não tem opinião sobre esses assuntos? Que é preciso deixar «a discussão correr», formar-se «um consenso» na «sociedade»?
Mas então - impõe-se a pergunta - porque é que falou deles?
(Pergunta retórica. É evidente porquê - porque o Bloco põe, as Docas põem, o dr. Santana põe.)

O dr. Santana põe, o delírio impõe-se: ficamos a saber que, «por ele», tanto faz. Tanto faz! Ele «admite» o casamento entre homossexuais. Ele «admite» o aborto. Os clones. Os travestis. O fado corrido. Até - imaginem! - a eutanásia.
Ele admite tudo, desde que seja moderno e que, claro, a «sociedade» atinja «um consenso».

A sorte do dr. Santana é que o eleitorado dele (o que resta) não leva a sério aquelas coisas. Parte do princípio que é delírio do homem. Ruído.
O que diz muito sobre a imagem que até os apoiantes têm do dr. Santana - e, infelizmente, muito também sobre o grau de exigência que essas pessoas põem na figura de primeiro-ministro.

São mesmo as mesmas pessoas que já sufragaram Sá Carneiro e Cavaco Silva?
É isso que eu não consigo entender.

5.2.05

aventuras domésticas

Esfolei um cotovelo a fazer uma cama.

«Eu disse-te que os beliches eram uma estupidez.»

Pois.

iraque 3

Miguel Monjardino, na Sábado, coloca a questão mais interessante sobre o Iraque:

... sabemos bastante sobre os terroristas e sobre os sunitas partidários de Saddam Hussein. ... [Mas] não sabemos quase nada sobre as pessoas verdadeiramente importantes no Iraque, os milhares de homens e mulheres que, apesar de tudo o que tem acontecido no seu país, decidiram concorrer às eleições. Quem são? O que é que os move? Quais são as suas ambições políticas?

Se recordarmos que, no Portugal de 1975, alguns dos que «decidiram concorrer às eleições» davam pelos nomes de Mário Soares, Sá Carneiro ou Adelino Amaro da Costa, percebemos que há muita coisa que as televisões não nos mostram e que vai ser, provavelmente, decisivo nos próximos anos.

3.2.05

debate 3

Nota positiva: não foi a Quinta dos Candidatos.
Com pena, certamente, de muita gente.

debate 2

O dr. Santana pareceu um bocado perdido nas questões. Inseguro dos dados. Reactivo.
O eng. Sócrates foi assertivo. Taxativo. Passou, tenho essa sensação, o limite que separa a afirmação da agressividade.
Não sei como reagirão as pessoas.

Opinião pessoal: o quadro de ideias e estratégias por trás do dr. Santana agrada-me mais. Das Scuts ao Iraque. O problema, como disse o eng. Sócrates, é que a gente sabe quem é o homem. O que ele faz. Como faz.

Ai.

debate

Suponho que este debate Santana-Sócrates terá a maior assistência a debates políticos nos últimos 20 anos. Não pelo debate de ideias mas, muito simplesmente, porque está toda a gente interessada em ver se eles 'se passam'.

Hoje, em directo, às 20h30: A QUINTA DOS CANDIDATOS.

2.2.05

suspiro


Poder deambular entre grandes armários de madeira com fichas e fios revestidos de tecido, pesados telefones negros de baquelite e telefonistas de saia travada e cabelo apanhado. Sonhos antigos. Perdidos. Nasci agora. Tenho telemóvel. Toda a gente tem telemóvel. Com imagem. Com música. Com rádio. Com cores. Sem peso. Sem fios. Sem graça.

1.2.05

iraque

As eleições de domingo passado no Iraque recordam-nos que há duas maneiras de viver: com medo e sem ele. Sem a guerra, bin Laden ainda estaria por cá, Theo van Gogh teria sido igualmente assassinado, e o mundo continuaria a dançar o minuete com Saddam. Depois da guerra, o medo tem pelo menos uma contrapartida: os iraquianos puderam votar. Os fundamentalistas hão-de estar furiosos. Gente haverá no mundo árabe que sentiu dúvidas no seu ódio ao Grande Satã. Valeu a pena? Vale sempre, quando a alma não é pequena.

31 de janeiro

O meu irmão nasceu num 31 de Janeiro. Rezam as crónicas da família que o meu pai ficou pintado de azul por ter sido apanhado pela carga da polícia durante uma das recorrentes manifestações oposicionistas que, nesse dia, tentavam percorrer a rua com o mesmo nome (dita de Santo António durante o salazarismo).
Uma tia-bisavó nasceu no 31 de Janeiro propriamente dito, o de 1891. Dizia a família que era má como os republicanos.

Suponho que toda a gente do Porto tem destas histórias familiares.
Há um certo conforto numa cidade como o Porto, suficientemente pequena para existirem estas identificações repetidas ao longo das gerações e suficientemente grande para ter largura de alma.

Mesmo longe, e apesar do senhor Pinto da Costa e do engenheiro Cardoso, estas coisas sabem bem.

31.1.05

iraque, 30 de janeiro de 2005


[foto do New York Times, hosted pelo Abrupto]

... todos os que contribuiram para este sorriso e para este dedo marcado de azul, só podem sentir alegria. (JPP, Abrupto).

Sim.

king arthur

Filme de fim de semana: King Arthur.
Os rapazes da casa todos ensarilhados no sofá, embrulhados em mantas, olhos cravados no écran. Som a romper das colunas, que é para se sentir bem a emoção.

Se eu queria ver outros filmes? Queria. Queria ver o último Bergman. Até queria rever as Asas do Desejo.
Mas - e depois onde ficavam os meus rapazes? E, no fundo, 40 anos ou não 40 anos, a verdade é que aquilo continua a bater. A emocionar.

Há algumas coisas demasiado forçadas, como o discurso libertador-cristão (claramente bushista - e não me batam, que eu até gosto do homem), ou o súbito desafio de Guinevere recém-saída da prisão a Arthur (muito feminismo-nova vaga - muito estilo Condoleeza Rice - lá vem o bushismo outra vez - raio do homem que tinha de meter uma mulher preta a Conselheira de Segurança Nacional, e depois a Secretária de Estado - não podia tê-la nomeado para a Saúde, ou para a Família?). Mas a cena do lago gelado, com o sacrifício do cavaleiro que morre a quebrar o gelo a machado, assim derrotando os saxões - é pura cavalaria, Quixote sublimado.

E a Guinevere.

«Quem?»
«Quem, o quê?»
«Disseste: 'e a Guinevere'.»
«Quem é essa?»
«Tu é que sabes.»
«Eu?»

lamento

Tinha jurado passar a escrever aqui todos os dias. Mas é tão tarde. Estou cansado. Toda a gente dorme cá em casa. Não consigo.

30.1.05

GTA

vieira do mar said...
Não podia estar mais em desacordo consigo. A violência gráfica deste jogo não é de todo comparável às nossas fantasias de criança do espaço 1999 ou dos indíos e cowboys.


Sim, eu compreendo o argumento. E confesso as minhas dúvidas. Talvez eu esteja errado.
Mas acho que a questão essencial não está no realismo gráfico do jogo. Não creio que as crianças dependam muito do realismo gráfico.
O problema do jogo não está na violência, e sim na ausência de moral. É isso que o torna diferente das clássicas histórias infantis - Pinóquio, Branca de Neve, Príncipe com Orelhas de Burro. A violência dessas histórias é enorme. Eu tinha pesadelos com a bruxa. Chorei a sério com as desventuras do Pinóquio. Mas essas histórias tinham uma moral.
No GTA não há moral. Essa, temos nós de a fornecer. Eu tive longas conversas com os meus filhos a propósito do jogo. Não apenas sobre a (evidente) diferença entre o jogo e a vida real. Entre os bonecos animados e as pessoas que se cruzam com eles na rua. Mas também sobre as questões fundamentais subjacentes ao jogo. Ser cruel é divertido? Matar pode dar prazer? A dor dos outros não interessa? Destruir tem piada? São questões verdadeiras. Existem mesmo. No mundo real. Sabemos que sim. Para quê escamoteá-las?
Claro, eu entendo que não está a defender que elas sejam escamoteadas, e sim que sejam adiadas para quando eles tiverem mais maturidade, mais capacidade de as discutir. Mas eu não creio que eles precisem desse adiamento. As crianças percebem perfeitamente estas questões. São capazes de as discutir. Entendem as implicações.
Além disso, é impossível adiar. O mundo é diferente. Eles viram o 11 de Setembro. Sabem quem foi Hitler. Eu discuto com eles o Holocausto.

Volto ao meu ponto fundamental. Não me preocupa por aí além que as crianças joguem o GTA. Preocupam-me mais os adultos que gostam do jogo. Quem é essa gente? Como é que consegue divertir-se com aquilo? Que fantasmas e recalcamentos é que esse pequeno exercício virtual exorcisa?

Mas claro que posso estar enganado. E digo-o sem ironia.
Há poucas certezas no ofício de pai. E o pior é que não se pode fazer primeiro um estágio. A primeira vez é logo a doer.

Compreendo que esteja em desacordo comigo. Mas espero que não me leve a mal.

28.1.05

lopes, houdini lopes

Eu, de há uns tempos para cá, ando com premonições.
Agora é esta sensação opressiva de que o rapaz ainda vai dar a volta ao resultado.

grand theft auto

Li o post da Vieira do Mar sobre o GTA.
Eu, por acaso, lembro-me relativamente bem das brincadeiras que tinha aos oito anos. Efeitos especiais e qualidades virtuais à parte, não tinham imagéticas mais pacíficas.
Atropelar gente e outros carros? E os carrinhos de choque?
Dar tiros a torto e a direito? E os índios e cóbóis?
E arrancar asas às moscas?
E rebentar sapos com fumo?
Pessoalmente, preocupam-me os adultos que jogam aquilo. Esses é que eu não entendo. Esses é que me assustam.
Os miúdos - a violência é-lhes instilada pelos jogos da PS2 ou pelo paizinho que, diante do televisor, insulta toda a gente e apela ao esquartejamento do árbitro quando a sua amada equipa não ganha?
Tenho muitas dúvidas que o GTA transforme um miúdo feliz em grunho.
E tenho muitas dúvidas que filho de grunho cresça bem formado.

60 anos

renovar renovar

Estava cansado do visual anterior do blogue. Era muito bimbo. Este chama-se minimal. Vê-se logo porquê. Parece-me bem.

o gato tem companhia

Esqueçam o Gato Fedorento. O PSL bate toda a gente aos pontos.

A ler sobretudo o post Alentejanos e uma coisa linda, intitulada Rumo à Vitória!! (onde é que eu já li isto?). É pena ninguém ali saber que existem umas coisas chamadas acentos, para pôr em cima de certas letras. E as vírgulas também andam um bocadito perdidas.

Não resisto a uma citação:

Só lhe posso pedir que continue a apresentar as suas ideias, as ideias do PPD/PSD. São elas que o farão vencer, que nos farão vencer, com elas vencendo Portugal.

Não se preocupe, caro JV. Portugal já está de rastos. Vencê-lo será fácil. Até com as ideias do Pedro. Por risíveis, invisíveis, fusíveis que sejam.

27.1.05

botox

O botox. Usar ou não usar? Uma revista da lusa praça recolheu depoimentos. Estão lá os da Nicole Kidman, da Andie MacDowell e do Boy George. Em Portugal, quem é que foi inquirido? O José Castelo Branco e umas senhoras que dão pelos curiosos nomes de Maya, Tekas e Mituxa. Estamos conversados.

25.1.05

ainda o debate

Parece-me tudo dito aqui.

notícias

Foi anunciado "um frio de rachar". Para esta semana. O povo foi aconselhado a sacudir as traças aos sobretudos e aos camisolões da neve e preparar-se para a idade do gelo.
Temperatura verificada em Lisboa: normal.
Mas o verdadeiro repórter não desiste.
Bragança. Parece que lá esteve frio: zero graus. Eis que o repórter se precipita sobre a cidade e entrevista uma velhinha.
«Então, acha que está frio?»
A velhinha responde: «Está.»
O repórter extasia-se: «Acha que sim?»
A velhinha confirma: «Sim.»
«Muito?»
«O normal.»
«E que fez para combater o frio?»
«Vesti uma roupa quente. E acendi a lareira.»
O repórter extasia-se ainda mais. Roupa! Quente! E lareira!
E vira-se e repete ipsis verbis para os telespectadores (que não percebem bragantino) o que a velhinha acabou de dizer.

Suponho que no Verão voltará lá, dessa feita para perguntar à velhinha o que sente por causa dos incêndios. Bom era que a casa dela ardesse. Isso daria uma reportagem das boas. Cheia de perguntas brilhantes, estilo: «E então como é que se sente, agora que a sua casa ardeu?» Talvez ela chore. E ele poderá dizer, absolutamente extasiado, para a câmara: «Ela chora!»

E não se pode exterminá-los?

24.1.05

e já agora

Eu explico a minha opinião sobre o assunto.

Há uns anos, quando o senhor Clinton legislou que os homossexuais já podiam ir para a tropa, houve quem, num repente iluminado, fosse perguntar à tropa de cá quando seriam também em Portugal autorizados os homossexuais no exército. Foi respondido (pela tropa...) que não percebiam a pergunta. Ninguém era impedido de ir para a tropa pelas suas preferências sexuais. O que havia (e há) em Portugal é a proibição de relacionamentos sexuais em contexto militar. Homo ou hetero.

Cada um achará o que quiser. A malta do direito à diferença pode gastar a voz a proclamar as virtudes dos rótulos. Eu prefiro um mundo onde simplesmente se não perguntam certas coisas às pessoas. Porque são assuntos privados.

P.S. - Isto não é sobre política. É sobre decência.